domingo, 6 de julho de 2014

UM GRANDE ESCRITOR HÚNGARO: DEZSŐ KOSZTOLÁNYI

Dezsö Kosztolányi nasceu em 1885 e faleceu em 1936. É um grande poeta e romancista húngaro das primeiras décadas do século XX. De que eu tenha conhecimento, há apenas uma obra traduzida em Portugal, o romance “Cotovia”, edição da Dom Quixote, em 2006. Tive conhecimento deste escritor e desta obra através de uma antiga entrevista de António Lobo Antunes, que reli há pouco tempo. A edição é muito cuidada e valorizada pela tradução de Ernesto Rodrigues, professor da Faculdade de Letras de Lisboa. “Cotovia” é um romance em que se narra a vida quotidiana de uma família da burguesia média, residente numa pequena cidade da província húngara. A acção passa-se durante uma semana, período em que a filha, filha única de um casal já de certa idade, vai de férias e deixa os pais sózinhos, o que acontece pela primeira vez. Na verdade, estamos perante um texto brilhante, construído com maestria. Um romance de costumes (no sentido utilizado pela crítica literária francesa), com uma fabulosa caracterização de situações e personagens, em que os sentimentos em geral, e as emoções em particular, são a verdadeira mola impulsionadora da acção que se narra. Como me iniciei na literatura através de romances do século XIX de autores portugueses (principalmente Camilo Castelo Branco) e franceses (Balzac, Zola), a leitura deste romance não só me foi fácil, como também empolgante, o que talvez não aconteça com as novas gerações de leitores. A obra está organizada em treze capítulos. Desde o primeiro capítulo, que se sente pairar uma sombra escura sobre esta família aparentemente feliz, constituída pelo pai (Ákos Vajkay – a personagem central), a mulher e a filha Cotovia, assim denominada devido aos seus dotes vocais. A vida rotineira do casal altera-se profundamente quando a filha vai passar uma semana de férias a casa de uns tios. Obrigados a irem fazer as refeições a um restaurante bastante frequentado, os pais acabam por contactarem com antigos amigos e conhecidos e a retomarem hábitos de outros tempos. Assim, numa noite, Ákos chega a casa de madrugada, embriagado e “explode” com algo que o tem amargurado há anos e anos e que tem a filha como causa: “... Ákos continuou: - Pois não seria melhor assim? Também para ela, pobrezinha. E mesmo para nós. Saberás o que ela sofre? Só eu sei, só o meu coração de pai sabe. Assim e assado, é como bichanam permanentemente nas suas costas, dizem mal dela, fazem pouco. E nós, mãe, o que nós já sofremos. Um ano, dois anos, esperámos, tivemos esperanças, o tempo passou. Julgámos que era, simplesmente, fruto do acaso. Dizíamos que tudo havia de terminar bem. Mas é cada vez pior. Será cada vez pior, e pior, ainda. - Porquê? - Porquê? – perguntou também Ákos, e disse, numa voz surda: Porque é feia. Pela primeira vez, era dito. Seguiu-se um silêncio. Um vazio mudo que ressoava em redor. A mulher pôs-se de pé. Não, nunca ela imaginara tal. Quando falavam da filha, e, por delicadeza, rodeavam a questão, pensava que, um dia, voltariam ao assunto, a sério, que, ponto por ponto, em pormenor, ela e o marido, e talvez alguns parentes, Etelka e Béla, como em conselho de família, debateriam a questão, durante dias, mas não de maneira tão directa, com esta simplicidade brutal. O que Ákos dizia matava, cerce, qualquer argumento, troca de ideias, qualquer solução. Doía-lhe. Revoltava-a esta crueldade, esta sinceridade. O marido ultrajara uma mulher, ultrajara a sua filha. E como se só isso a fizesse sofrer, ulcerada e irritada, gritou-lhe: - Não! Não! - Mas sim, sim! É feia, muito feia! – gritou Ákos, voluptuoso –, feia, e uma pobre velha, tão feia – e fez uma careta horrível, torcendo boca e nariz –, tão feia como eu. Arrancou-se, a custo, do sofá, para mostrar como era, na verdade, ele, em pessoa, e foi ter com a mulher. Assim se desafiavam nos olhos os velhos pais de Cotovia, em camisa, descalços, quase nus os dois corpos, de cujos abraços nascera, outrora, a filha. Ambos tremiam de emoção. - Estás bêbedo – disse a mulher, com desprezo. - Não estou bêbedo. - Pecas contra Deus. - Ainda que fosse coxa – berrou Ákos –, fosse corcunda, ou fosse cega, nem assim era tão feia – e, aqui, desatou a chorar, lágrimas abundantes lavaram-lhe o rosto manchado de cinza, e alma atormentada. A mulher, entretanto, agigantava-se. Peço-te – disse, bruscamente, com uma severidade de que não se julgaria ser capaz, com uma inteligência aguda, uma vivacidade no olhar, que, até ali, ninguém ainda lhe vira, ninguém lhe conhecia no meio que frequentava. – Peço-te – e levantou a voz –, proíbo-te de falar assim da minha filha. Ela também é minha filha. Sinto-me na obrigação de defender a minha filha, a tua filha, contra ti. Envergonha-te! - O quê? – balbuciou Ákos, e fez corpo. - Não te admito – disse a mulher, e bateu na mesa. – Uma coisa assim, não te admito. Que farsa, disseste antes. Pois olha, isso é que é uma farsa! Ákos regressava da embriaguez, que parecia dissipar-se. - Bom, atirou-lhe –, falemos com seriedade... Comigo, também se pode falar com seriedade. - Hoje, comigo, não é possível falar com seriedade. Regressas de madrugada, deixas a casa de pernas para o ar, distribuis dinheiro pelos cantos, queres incendiar a casa em cima da minha cabeça, falas de tudo e de nada. Antes de mais, é preciso que durmas – e dirigiu-se para a cama. - Mãe – disse Ákos, retendo-a –, fica um pouco – disse, quase implorando. A mulher reteve-se- - O que queres afinal? – impetrou o marido. – Porque choras? Porque gritas? Não te percebo. Falava com dureza. Fez uma pausa. E, em tom mais doce: - Está bem, não casa. E depois? Há muitas mulheres que não casam. Tem trinta anos, ainda pode vir alguém. Nunca se sabe. Quando menos se espera. Eu devia abordar os homens na rua, ou colocar um pequeno anúncio nos jornais? Para uma Vajkay. Vamos, peço-te.” O capítulo (o décimo) termina com a mulher a chamar-lhe a atenção para o amor que existe entre os três, o mais belo dos sentimentos que pode unir os seres humanos. Os três capítulos finais centram-se na chegada da filha e na retoma das vidas de sempre, talvez agora mais tristes e mais conscientes, mas sem a tensão latente em que tinham vivido (a própria Cotovia, na semana em casa dos tios, tinha tomado consciência do modo como era olhada, tratada). Mas há um outro aspecto a realçar neste romance: é um belíssimo documento histórico sobre a vida quotidiana de uma pequena cidade húngara e um valioso contributo para o estudo da mentalidade de uma comunidade da Europa Central, nos primeiros anos do século XX.

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